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EX-LIB%IS.
Saudades do Céo
OBRAS DE EUGÉNIO DE CASTRO
POESIA
OARISTOS (1890) Esg IvoU
HORAS (1891) Esg I vol.
SYLVA(i894) 1 vol.
INTERLUNIO (1894) 1 vol.
TIRESIAS (1893) Esg Ifolh.
SAGRAMOR (1895) I vol.
SALOMÉ E OUTROS POEMAS (1896) | vol.
A NEREIDE DE HARLEM (1896) I folh.
O REI GALAOR (1897) 1 vol.
DEPOIS DA CEIFA (no preloj I vol.
PROSA
BELKISS (1894)
I vol.
TRADUCCOES
>
BELKISS, traduzione italiana di V. Pica (Milano, Fratelli
Treves, 1896) I vol.
BELKISS, traduction française par Ph. Lebcsgue (sous presse) 1 vol
BELKISS, traducción espanola por D. Luis Berisso (Buenos
Aires, J. A. Kern, 1897) . I vol.
Eugénio de Castro
Saudades do Céo
.Ò^Cu
l » •
C njC ') ! ■:
D'esta edição fez-se uma tiragem especial de doze
exemplares numerados e rubricados pelo auctor.
N.° I e 2 em papel Whatman
» 3 a 12 em papel de linho, portuguez.
To MY Friend
Launcelot Cranmer-Byng
This Põem is dedicated
E. DE C.
li
I,
■I
:
I:
I
Genuitque Ada Jabel, qui fuit
pater habitantium in tentoriis, atque
pastoril m.
Génesis, Cap. IV, v. 20.
N
J
um d'esses orieniaes descampados de pedra,
Onde, ao vermelho sol, nem mesmo um cardo medra,
Nem o musgo avelluda os rápidos pendores,
Ha longos dias já que os nómades pastores.
Bronzeados^ semi-nus, ao vento morno esparsas
As melenas hostis e séccas como sarças,
Vão procurando embalde uma pastagem verde. . .
Sinistros, cada um em apprehensões se perde. . .
Quasi tocam no chão co'as frontes tacituínas,
E os seus olhos fataes são recônditas urnas.
l6 SAUDADES DO CÉO
Onde brigaip leões n'uma noite de raios ;.
Dá-lhes a sede cruel tonturas e desmaios,
Acutila-os o sol em candente saraiva. . .
As mulheres, uivando e torcendo com raiva
Os seus braços de cobre, arrancam lastimosas
Os cabellosy onde ha cadáveres de rosas,
E escabujam no chão, famintas, descompostas. . .
(lahindo de fadiga, as mães levam as costas.
Em saccólas de pell' d'onagro, os filhos nús.
Que, açoitados p'la fome e mordidos pela luz,
Desfallecendo em vãos e pallidos gemidos,
Mammam nos dedos já de todo resequidos. . .
Esfaimadas, sem tino, as furibundas rezes
Farejam cada pedra, e, sequiosas, por vezes,
Arremessam-se, ás dez e ás doze, de roldão,
Aos abysmos sem fim onde ruge um cachão. . .
O sol dardeja fogo. . . A poeira empasta as boccas. . .
E p'las ravinas vão reboando, como loucas,.
As palavras febris, que, em troante escarceo, ■
O velho Patriarcha atira para o Céo !
Mas eis que, ao desbotar d'esse dia abrazado,
Apparece afinal um verdejante prado,
SAUDADES DO CÉO I7
Onde, como n'um mar de calmas transparências,
Cada amendoeira, rindo em claras florescencias.
Faz parecer, de longe, um dorso de mulher
Que estivesse a banhar-se ali, ao entardecer. . .
Mil gritos de alegria encruzam-se altaneiros !
Os camelos, os bois e os lanzudos carneiros.
Em célere fugir, que a mais e mais se exalta,
Mergulham n'esse mar d'herva tenra é tão alta
Que os faz desappar^cer, n'esse mar socegado
Ainda ha um instante, como um estofo retesado.
Mas que agora se agita em grandes vagalhões.
Como um trágico mar onde rompem vulcões,
E aonde, produzindo infernaes redemoinhos.
Andam a batalhar dez mil monstros marinhos !
A' voz do Palriarcha, os pegureiros broncos,
Ágeis e coUossaes, cortam robustos troncos
Com que elevam depois uma fila de tendas.
E as virgens, caminhando em balsâmicas sendas,
E acordando, a cantar, aquelles virgens echos.
2
i8
SAUDADES DO CEO
Sempre a bailar e a rir, enchem os odres seccos
Na prata musical dos ribeiros pasmados,
E colhem lindas flor's e fructos tão doirados,
Que as arvores, que os dão, graciosas quaes don2ellas.
São n*essa tarde azul quaes arvores d'estrellas. . .
II
Videntes filii Dei (ilí:is homínum
quod essent pulchrac, ncccpcrunt sibi
uxorcs ex omnibus quas elegerant.
Génesis, Cap. VI, v. 2.
A,
.Itas horas da noite, as moças perturbadas,
Ouvindo um extranho som de violas encantadas,
Vendo pelos rasgões das pelFs, que estão cobrindo
As tendas, uma luz de prodígio, e sentindo
Um aroma celestial de inconcebíveis flores,
Erguem-se de mansinho, a palpitar d'amores,
E cada uma sae da sua tenda,' núa. . .
Maravilha sem par !
A pequenina lua,
Que cabia n'um poço, alargou-se, cresceu,
Encurvou-se, e eil-a agora a forrar todo o céo I
12 SAUDADES DO CEO
Ah ! que brilho divino o céo glorioso tem !
Mas olhae, mas olhae : vede os Anjos alem I
Vêde-os : que resplendor I E descem I Contemplae-os
Os seus olhos, que são flor's com luz, lançam raios,
Que são luz com aroma, e o adejar puro e leve
Das suas azas é como um florir de neve I
Vêde-os ! vêde-os descer do céo de prata ardente,
Mancebos a sorrir eífeminadamenie.
Como fructos ideaes da paixão assombrosa
Com que um cysne adorou uma donzella airosa,
Que antes de ser mulher fosse lirio de gelo !
Vêde-os I vêde-os descer com astros no cabello,
Loiros, insexuaes e pallidos, vestidos
Com leves fumos d'oiro. . .
Uns arrancam gemidos
A's violas de crystal ; outros trazem rexiomas
D'onde sobem no ar transcendentes aromas ;
D'outros as fluidas mãos, femininas, inquietas.
Perseguem com ardor doiradas borboletas,
— Borboletas de mica atraz de estrellas d'oiro. . .
SAUDADES DO CÉO 23
No brilho excepcional do ar aíFagante e loiro,
Suas vozes d'arminho enlacam-se cheirosas
Como brisas d'outomno em canteiros de rosas. . .
E assim, dewendo sempre em balanços de vaga,
Chega o cortejo á terra e n'ella se propaga
Com passos tão subtis, que as frágeis margaridas
Depois que as calca um pé ficam de novo erguidas
Vendo nuas ali as morenas donzellas,
Os filhos^*Uo Senhor vão logo ter com ellas,
E perdidos aamòr, com desmaios na voz
E deliquios i^o olhar, cada um parte veloz,
Gracioso, arrebatando a sua linda eleita,
Com quem, doido, feliz e trémulo, se deita
Em tapetes de flor's, á sombra azul dos ramos. . .
Quando a manhã surgiu cofm seus áureos recamos,
H
SAUDADES DO CEO
Quando os Anjos liriaes, namorados cruéis,
Haviam regressado aos divinos vergéis
E as filhas dos mortaes gemiam assombradas
Por não se verem já aos noivps abraçadas,
Quando os visos, ao sol, se iam já aloirando :
— O velho Patriarcha, erguendo-se, espraiando
Ô fatigado olhar, e avistando as serenas
Campinas maiinaes cobertas pelas pennas,
Que o amor tinha arrancado á prateada innocencia
Das .azas virginaes dos anjos em demência.
Quedo e anguloso qual agulha de basalto.
Ficou mudo, a pensar. . . e emfim clamou bem alro
a Como foi ? como foi, poderoso Senhor,
« Que caiu tanta neve havendo tal calor ? »
III
Gigantes autem erant super tcr-
ram in diebus iilis; postquam enim
ingressi sunt filii Dei ad filias
hominum, illaeque genueruiit, isti
sunt potentes à.saeculo viri famosi.
Génesis, Cap. Vi, v. 4.
D,
a voluptuosa união dos Príncipes do Céo
Co'as pastoras mortaes, uma raça nasceu
De esforçados heroes, gigantes e suaves,
Fortes como os tufóes e ingénuos como as aves,
Lindos como seus pães e ágeis como os reptis. . .
Porém, emquanto, junto aos nómades redis,
Os netos de Jabel, pegureiros tostados.
Sonham sonhos de paz nas tendas abrigados.
Acham que a vida é boa e descantam contentes ;
Emquanto de Jubal os mansos descendentes,
Doces órgãos tangendo e cyiharas maviosas,
Julgam atravessar frescas moitas de rosas
Muito embora seus pés calquem areaes adustos ;
28 SAUDADES DO CÉO
Emquanto, finalmente, incansáveis, robustos,
Os netos de TubalcaVn, brandindo o malho,
Gosos, deleites mil encontram no trabalho,
Que executam da forja aos arruivados brilhos
Dos Principes do Céo os nostálgicos filhos
Olham o curvo azul cheios de soffrimento. . .
A's horas da poesia e do recolhimento.
Quando do sol defuncto a purpura esmaiece,
E de cada estrellinha um raio d'oiro desce.
Que nas almas se prende e as eleva depois,
Entre o hálito das flor's e a voz dos rouxinoes,
Entre as caricias do ar pacifico e oloroso,
Onde o luar parece um fumo luminoso
Coado por serena e pallida saphira ;
N'essas horas de anceio em que tudo suspira
N'uma anciã d'amor angustiado, immenso,
E dos lagos o leve e lunático incenso
Sobrenaturalisa os quietos arvoredos ;
Quando se ouve crescer o musgo nos rochedos,
Quando se ouve o subir da seiva, e á flor dos campos
Estrellejam aos mil, os finos pyrilampos,
Gottas d'oiro que são as lagrimas rogaes . .
N.
Que as estrellas com dó vertem pelos mortaes ;
SAUDADES DO CEO 29
Da raça angelical as tristes vozes d'ouro
Alçam-se ao puro azul em arquejante coro,
Que, dorido, commove as folhas e as areias :
« Piedade, Anjos do Céo I Em nossas pobres veias,
« Onde, de hora em hora, o fogo atroou augmenta,
a O vosso sangue irava uma luta violenta
« Com o sangue de nossas mães, que amastes tanto !
« Ai de nós I ai de nós, Anjos do Céo !
' « Emquanto \
« Nos prendem estes pés ao rude e odiado chão, \
« Nossas almas seguindo, os nossos olhos vão,
a Sequiosos de esplendor e de imprevisto, á cata
ff Dos celestes jardins, onde as fontes de praia
« Embalam, como irmãs, vossos sonhos floridos !
Cf Olhando o claro Céo com olhos doloridos,
« Olhos que balam como as transviadas re:;es,
a Buscando a vossa pátria, ó Anjos, quantas ve:jfes
a Temos caidojá nos mais fundos abysmos I
« Debalde qu 'rendo voar, em doidos paroxismos,
« A nossa alma chora, implora, ruge e clama :
« Ai ! a terra nos prende emquanto o ajul nos chama !
1^-r-J»=rfPHI
V
3o SAUDADES DO CÉO
« Ai de nós ! Ai de nós ! Desterrados errantes,
« Somos como o infeli^ que dois toiros possantes
a Puxam iradamente em direcções contrarias I
« Vendo as nuvens cobrindo as serras solitárias
« Onde o silencio e a neve estão noivando ha muito y
« Subimos até lá no tresloucado intuito
I « De lobrigar de ahi a vossa pátria emjim,
f
' « Seus muros de topázio c portas de marfim,
I
i
« De ouvir a vossa voj e haurir vossos perfumes . . .
ff Mas lá de cima, lá d'esses nevados cumes,
<f Par'ceunos, ai de nós ! par'ceunos que augmentára
ff A distancia cruel que de vós nos separa I
« Não augmentára, não ! porém n 'aquelles ermos,
« Diminuirá a fé de a vossa pátria vermos I
« A fé diminuiu. . . mas a terrível anciã
« De transpor, de vencer a invencível distancia,
« Cada veijf nos agita e nos tortura mais !
« Sabemos, ai de nós I sabemos que jamais
« Havemos de chegar ao Céo, e ape^far d'isso,
« Tentamos realisar o desejo insubmisso,
« Choramos por de prompto o não ver realisado,
« Tornamos a teimar com esforço redobrado,
ti E a nossa alma chora em triste desatino.
SAUDADES DO CEO 3l
« Como chora e soluça o timido menino
« Que não pôde colher co*a maosinha estendida
« A estrella d* áurea luj no lago reflectida,
« Aonde se reparte em turbulentos brilhos . . .
« O* Anjos, tende dó dos vossos pobres filhos ! »
Apagasse no ar a desvairada prece. ..
Mas o vasto jardim dos astros permanece
N'um silencio cruel onde, de instante a instante,
D'um relâmpago passa o clarão latejante,
Como se o alto céo fosse um mar atravez
De cujas agoas, com enorme rapidez,
Por vezes transluzisse o fundo d'oiro ardente. . .
A's noitadas febris succedem tristemente
Dias de tédio amargo. . .
E a desditosa raça,
Para a qual, no seu horto, o génio da Desgraça
Reserva-attentamente os mais azedos fructos.
Sempre postos no céo os olhos nunca enxutos.
Dos seus prantos com o sal queima os verdes relvados. .
Trlíí
32
SAUDADES DO CEO
Elles que eram gentis, soberbos e esforçados,
Que esganavam leões e panlheras ciosas,
Passam agora — negras sombras lastimosas ! —
Todos cheios de cans, trémulos, pensativos,
E com tal pallidez que nem parecem vivos I
E quando algum, vencido emfim pelos cansaços
E ainda mais pela dor, ouve os macios passos
Da Morte sororal, que entre as brumas se avista,
E sente, com pavor, tão fraca a sua vista
Que já não pôde erguel-a ao céo brilhante e frio,
Pede então que o vão pôr ao pé d'um manso rio,
E ahi, as nuvens vendo e as estrellas na agoa.
Mudo, expira afinal com a índizivel magoa
Com que Moysés, mais tarde, em maniiã dolorida
A*s portas expirou da Terra-Promettida !
\
3
IV
5. Videns autem Deus quod multa
malitia hominum esset in terra, & a
cuncta cogitatio cordis intenta esset
ad malum omni tempore,
6. Poenituit eiim quod hominem
fecisset in terra. Et tactus dolore
cordis intrinsecus,
7. DelebOjinquit, hominem. vi liem
creavi, à facie terrai, ab hcmine
usque ad animantia, à reptil i usque
ad volucres coeli ; poenitet enim me
fecisse eos,
8. Noé vero invenit gratiam coram
Domino.
Génesis, Cap, VI.
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si.
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r
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A
J
proporção que a espVança azul de entrar no Céo,
Como ave que no peito um dardo recebeu,
Do impenetrável Céo vinha a cair, exangue,
Co*as plumas virginaes todas tintas de sangue,
A triste geração dos Anjos namorados
Ia buscando em vão nos montes e nos prados,
Nos rios e no mar, um efficaz remédio
Contra o frio soífrer em que a abatera o tédio.
Debalde aquella raça abraçava co'a vista
Oceanos musicaes de purpura e amethysta,
Ilhas cheias de luz, que eram ramos de flores,
Florestas que, ao luar, se enchiam de explendores.
3Ó SAUDADES DO CKO
í Cavernas onde ò mar acachoava com ira,
j E, ao romper da manhã, montanhas de saphira
! Com bosques de esmeralda e cristas de diamante.
Das bellezas da terra o irradiar constante
Não lograva prender, nem sequer distraía
Essa raça infeliz a quem tudo par'cia
Monótono, esmaiado e triste, — tão presente
Tinha nos olhos seus a gloria refulgente
Das paisagens do Céo em sonho contempladas. . .
Mas alguém, dormitando á sombra das ramadas
Sob as quaes do Phison as agoas crystallinas
Riam n'um leit^ astral d'oiro e de cornalinas,
Ouvindo o soluçar d'aquelles desditosos,
Bradou-lhes :
« Enchiigae os olhos lacrymosos !
« Vinde a mim l vinde a mim, se delibar quereis
« O philtro que dissipa as ynagoas mais cruéis,
« O precioso licor que tudo inflora e doira,
« Qiie torna o pescar negro em madrugada loira,
« As serpentes do tédio em lúcidas grinaldas,
« E que dos tristes beija as frigidas espaldas
« Qual manto embalador feito de virgens lábios !
SAUDADES DO CEO jy
« Vinde beber se quereis ser ditosos e sábios I
» Loucos, vinde !
4
« Alrave^ d' este vinho sem par
« De prcmpio enxergareis um pai:; singular,
« Que a cada instante muda e mais bello se torna,
f Aonde cada hora, ao fallecer, adorna
« O a^ul com mais um astro ardente e multicor,
" E os sonoros jardins com uma nova flor,
« Pai^ de seducção e de crescente encanto,
« Ao pé do qual o Céo que appetecieis tanto,
« O' chorosos mortaes ! não é mais que uma sêcca,
« Interminável, triste e misera charneca !
« Este vinho bebei !
« Mal o beberdes, logo
t< Sentireis do prazer o aromático fogo,
« Prostrandovos de manso em extasis risonhos !
« Vossa alma viverá os mais divinos sonhos,
« Vossos olhos verão só claridade e fausto,
« E parecer-vos-á que o vosso corpo exhausío.
,VV'
38
SAUDADES DO CEO
« Refrescado ao voar de róseas borboletas,
« Descança n'um colchão de cheirosas violetas
« Que fluctua n'utn mar de somnolentas ondas l
« Bebei ! e sahireis das florestas hediondas
« Onde o tédio vos prende e vos c 'roa de espinhos I
« Bebei! e avistareis balsâmicos caminhos/
« Onde, de passo a passo, a espreitar p*las roseiras,
« As filhas do Pra^ier sorriem lisong eiras,
« Alliciantes, gentis, pródigas de caricias !
\
f« Bebei I e sabereis que infinitas delicias
« A luxuria contém ! como o incesto é gostoso.
K Como o estupro vos guinda aos pincaros do goso !
«< Bebei ! e este licor ha de dijer-vos como
« A vingança é um vermelho e sumarento pomo,
« Como é bom morder n 'elle, e apunhalar cem ve^es
« Quem já nos beliscou !
« Bebei! são d 'oiro as fejes
SAUDADES DO CÉO Sg
« D' este vinho de luf, que vos dirá também
« Que deleites sem fim uma traição contém,
« E como é bom lançar a um fundo abysmo hiante,
« O homem que ao pé de nós seguia confiante,
« E cujo respirar nos lançaria ao chão I
« Bebei ! e sabereis que doce excitação
tt Nos sacode, como um voluptuoso açoite,
« Qiiando vamos roubar, pé ante pé, de noite,
« O oiro, os anhos e o mel do visinho que dorme !
« Bebei ! e sabereis como é intenso, enorme
« O regalo de urdir contra um amigo ausente
« Uma calumnia atroai !
« Bebei ! e, de repente,
« Ficareis a saber como enaltece e exalta
« Os fracos opprimir e construir bem alta
« Sobre a sua fraqueja a nossa força dura l
tt Bebei ! e provareis volúpias com fartura I
AO SAUDADES DO CÉO
■ í. « Bebei ! e em vossa fronte agora tão sombria
. .; « Breve succederão as rosas da alegria,
•<i\ . .y « Do vosso desespero aos macilentos laivos!
o Bebei ! Bebei I Bebei ! Bebei ! Embebedai-vos í »
Doiradas pela espVança as frontes taciturnas,
Todos correm então para as brilhantes urnas
Onde fulge o licor. . .
Era ao cahir do sol. . .
E quando, p'la manhã, o triste rouxinol,
No virído chorão envolto em brumas cérulas,
Terminou com angustia o seu cantar de perdas.
Que fez chorar as flor's, cujas lagrymas finas
Lhes bordavam ainda as pálpebras franzinas,
Iam tintos de sangue os rios e os ribeiros. ..
Passavam, a clamar, furiosos pegureiros,
Procurando o ladrão que as rezes lhes roubara ;
iMcMs d'olhos azues, de tez mimosa e clara,
(^cirpiam-se, a tremer, vendo-se desfloradas ;
SAUDADES DO CEO 4I
Aos soluços e aos ais, cm loucas debandadas,
As viuvas côr do luar iam buscando em vão
Seus maridos gentis vencidos á traição ;
A calumnia, a tecer, qual peçonhenta aranha
Criava duellos mil de furibunda sanha ;
Cheios de cio, os pães, em lascivos anceios
Das filhas virginaes profanavam os seios ;
E nuas, sem pudor, do sol aos flavos brilhos,
Voluptuosas, as mães iam tentar seus filhos !
A raça angelical, na ebriedade incendida
D'aquellas preversões, rapidamente olvida
O cubicado céo, e com tal força exprime
O enervante sabor dos vicios e do crime.
Das tenebrosas flor's do seu viver presente.
Que as outras raças que viviam mansamente,.
Das hervas e metaes na completa innocencia,
Atiram-se também, tomadas de demência.
Ao escuro torvelim das Abominações I
^afnfciiiifcBr 'ÁisàimÊàáÊ
• nriiiisii
42 SAUDADES DO CEO
As estrellas no azul parecem corações
Trespassados; o sol afasta-se dos céos
ff
Para não se espelhar em mar's de sangue. . . E Deus,
Arrependido emfim de haver creado o homem,
Deixa que as paternaes angustias, que o consomem
Morram ás fortes mãos da cólera, que o irrita,
E depois de avisar Noé, alma bemdita.
Com raios acutila as nuvens altaneiras
D'onde a chuva golfeja em sinistras cachoeiras.
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V
11. Anno sexcentissimo vitae Noê,
mense secundo, septimodecimo die
mensis, rupti sunt omnes fontes
abyssi magnèc, & cataractae coeii
apertae sunt.
12. Et factaestpluvia super terram
quadraginta diebus & quadraginta
noctibus.
Génesis, Cap. VII.
H
a muitos dias já, ha já bem longas noites,
Que o estalar dos bulcões e o atroar das torrentes,
Ribombam com furor, quaes rábidos açoites,
Ao crebro rutilar dos coriscos ardentes.
Pradarias, vergéis, hortos, vinhedos, mattos.
Tudo desapparVeu ao rude desabar
Das constantes, hostis, raivosas cataractas.
Que fizeram da terra um grande e torvo mar.
46 SAUDADES DO CÉO
A' flor do torvo mar, verde como as gangrenas,
Onde homens e leões bóiam agonisantes,
Imprecando com fúria e angustia, erguem-se apenas,
Quaes monstros collossaes as montanhas gigantes.
E' ahi que, ululando, os homens com as feras
Refugiar-se vão em trágicos cardumes ;
O mar sobe, o mar cresce, e os homens e as pantheras,
Creanças e reptis caminham para os cumes.
Os fortes, sem haver piedade que os subjeite,
Arremessam ao chão pobres velhos cançados,
E as mães largam cruéis os filhinhos de leite,
Que os que seguem depois pisam hallucinados.
Um sinistro pavor, crescente e sufFocante,
Desnortea, asphyxia a turba pertinaz : ^
Ouvem-se urros de dor, e os que vão adeanle
Lançam pedras brutaes aos que ficam p'ra traz.
SAUDADES DO CÉO 47
Raivoso, o toiro estripa os míseros humanos
Que o 'storvam, ao correr em fuga desnorteada,
E pelo ar tenebroso as águias e os milhanos
Fogem com vivo horror d'aquella estropeada.
Cresce a treva infernal nos cavos horisontes,
O oceano sobe e muge em raivas cavernosas,
E as ondas, a trepar pelos, visos dos montes.
Fazem de cada vez mil victimas chorosas I
Os negros vagalhões nos bosques mais cimeiros
Silvam e marram já com golpes iracundos ;
Resplendem raios mil em rútilos chuveiros,
E os corvos a grasnar desolham moribundos.
Blasphemias, maldições elevam-se á porfia.
Fustigado p'lo raio augmenta o furacão ;
Cada ruga do mar accusa uma agonia,
Cada bolha, ao estalar, solta uma imprecação.
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48
SAUDADES DO CEO
Cresce o mar, sobe o mar. . . c traga rudemente
Dà mais alta montanha o píncaro nevado,
E um tremendo trovão applaude a vaga ardente
Que envolve, ao despenhar-se, o ultimo condentinado . .
Cresce o mar, sobe o mar, que já topeta os céos,
E levada p*lo fero e desabrido norte.
Sua espuma a ferver molha o rosto de Deus
Que lhe encontra um sabor nauseabundo de morte. . .
Cresce o mar, sobe o mar. . . cada vaga é uma torre !
No céo, o próprio Deus melancholico pasma. . .
E pelos vagalhões acastellados corre
A Arca de Noé, qual navio-phantasma. . .
VI
4 Venite, fdciamus nobis
civitatero, & turrim, cujus culmen
pertingat ad ccelum. . .
Génesis, Cap. XI.
R,
.esurge a terra emfim I O sol quente e arruivado
Beija-a com louco amor, qual moço namorado
Que, no auge do prazer, languidamente abraça
Sua noiva gentil, flor de innocencia e graça
Que desperta e sorri, no seu amado absorta.
Dentro do esquife branco em que ia como morta. . .
Como o sol a acarinha I
E ella, a terra amorosa,
QuVendo que o seu amigo a veja bem formosa,
A ataviar-se nem um só minuto perde :
52 SAUDADES DO CÉO
Dos bosques musicaes cinge a pellucia verde,
Dos ondados trigaes cinge as sedas, nas tranças
Põe os lagos azues^ negras saphiras mansas,
E aperta no pescoço os rios crystallinos,
Que são grandes rocaes dos diamantes mais finos
Viçosos, virginaes, meigos e encantadores.
Rebentam, sem cessar, seus sorrisos — as flores. .
E em direcção do sol, lestos, chilreantes, suaves,
Sobem, sobem aos mil os seus beijos — as aves !
No cume do Ararat, onde aferrou a Arca,
Silencioso, Noé co'a funda vista abarca
O luminoso Céo, emquanto a sua gente
Prepara um holocausto. . .
O machado explendente
Uma a uma derriba as victimas vendadas,
E na disforme pyra as chammas aloiradas
Crescem, azas de fogo, aéreas, scintillantes,
Fazendo rechinar as carnes palpitantes
Cujo cheiro se evola entre alvacentos fumos. . .
SALDADeS DO CÉO 53
Da águia ao collibri, em recortados rumos,
Todas as aves, que Noé prendido havia,
Vão a voar, a voar co'a insensata alegria
Do ceguinho infeliz que um dia acorda a ver. . .
Fulge o Arco da AUiança I
O calmo entardecer,
Dos montes faz cair as sombras nas campinas. .
Expiram do holocausto as brazas purpurinas. . .
E o virtuoso Noé, com passadas sonoras.
Levando atraz de si filhos, genros e noras.
Ao nascente clarão micante do luar
Desce o verde Ararat e vae pVa Senaar. . .
54
SAUDADES DO CEO
Alguns annos depois, por noite d'aureo brilho,
A gente de Noé descamisava o milho
E cantava canções de graciosos remates
Vendo a lua a brincar no marulhante Euphrates
Quando um moço bradou :
« Irmãos I mais nos valera
« Que Deus nos não poupasse á cólera severa
« Com que, ha pouco, puniu a triste humanidade !
« Meus irmãos pelo sangue e pela inflicidade I
« Mais nos valera, sim ! que do diluvio a sanha
« Tivesse posto umfmi a esta dor tamanha,
« E que dos campos sobre a avelludada alfombra
tt Nunca mais dos mortaes passasse a negra sombra I o
SAUDADES DO CEO
55
Ouvindo aquella voz cheia de maldições
Param subitamente os risos e as canções
E uma nuvem encobre o crescente da lua
Porém, como uma estatua, o moço continua:
«r Pqís dijei : não sentis dentro da vossa alma
« Unia anciã febril, anciã que nada acalma,
« E um cansaço da terra hedionda onde vivemos,
« Qiie nos pesa, cruel, muito embora a calquemos,
« Da terra que nos tem por 'scravos e captivos,
« Que nos bebe o suor em quanto somos vivos,
« is nos devora emfim, quando caimos mortos ?
tt Dijei : quando, ao luar, pallidamente absortos,
« D'hervas verdes eJlor's n' um perfumado leito,
aFixaes o curro ajul, não vos magoa o peito
« A af;uia qua lá 'stá presa, a águia que delira,
« E que, tentando voar, bate as ajas com ira ?
56
SAUDADES DO CEO
(( O' meus irmãos I diijfei : pois não tendes saudades
« Do Céo, d'esse pai:^ de puras claridades,
« Onde, benigno, o sonho as nossas almas leva,
« E ao regressar do qual só respiramos treva f
« Di^ei : não suspiraes por ir morar emfim
« D 'esse pai:^ de lu:^ nas tendas de marfim,
« Onde descantam, em maviosíssimos coros,
« Entre fulgurações, os bellos Anjos loiros
« De quem, muitos de nós,' somos talveijf os netos ? »
Todos os corações pulsam doidos, inquietos :
As palavras do moço explicam finalmente
A mysteriosa angustia insomne e persistente
Que de longe trucida aquella multidão I
Mil gritos de amargura alçam-se ao céo então,
SAUDADES DO CEO
Gritos onde estremece a dor do desgraçado V
A quem rebenta emfim o cancro esbrazeado, J
Que, ha muitos mezes já o peito lhe comia ! y/
Solemne, o moço diz com vibrante ousadia :
5?
« Maldito seja Deus I
« Nossas forças unamos
« Com gigante vigor, irmãos I e construamos
« Uma torre de tão prodigiosa altura,
« Que nos conduja ao Céo, que a noss' alma procura! »
Um bravo furacão revolve as densas grenhas
Das mattas, e o trovão ribomba p'las montanhas. . .
'" "^^" '"mimÊÊÊÊtmÊtmm
58
SAUDADES DO CEO
*
Vendo que a torre hostil dos astros approxima,
E que a sombra, que ao sol produz, salta por cima
Dos montes coUossaes, iracundo, o Senhor
Por terra a faz ruir com terrivel fragor !
No auge da afflicçao, os homens desvairados
Deixam de se entender, e, trémulos, aos brados,
Desatam a fugir em varias direcções. . .
Mas breve, cada um, ao troar dos trovões.
Sente a alma retomar seu adorado norte,
E pensa em construir uma torre mais forte !
Coimbra,
4 de agosto de 1897.
Canto I
Canto JI
Canto III
Canto IV
Canto V
Canto VI
índice
I>i.g.
21
27
35
45
5i
ACABOU DE IMPRIMIR-SE
ESTE POEMA AOS TRINTA
E UM DIAS DO MEZ DE
JANEIRO DO ANNO DE MIL
OITOCENTOS NOVENTA E
NOVE NA TYPOGRAPHIA
DE FRANCISCO FRANÇA
AMADO. EM COIMBRA.